Felizmente ele morreu
Dr. Antero Coelho, como eu já disse várias vezes aqui é o cara que praticamente me apresentou o Transhumanismo.
E, sem dúvida seus textos são ótimos e merecem ser lidos.
Este em especial, tomei a liberdade de publicar aqui, logicamente, com os devidos créditos.
Felizmente ele morreu
Antero Coelho Neto - Professor e presidente da Academia Cearense de Medicina
Por que continuamos dizendo isso? Até quando vamos ter de ouvir esta frase de “consolação” ? Há poucos dias, um idoso e querido amigo meu morreu, após anos de muito sofrimento, e ouvi vários outros companheiros e familiares falando mais ou menos assim. Claro que convencidos de que ele já tinha o “direito” de não sofrer mais.
Grande consternação. E, hoje em dia, cada vez mais, temos casos semelhantes.
Com o envelhecimento, passamos a apresentar uma série de perturbações fisiológicas, transtornos físicos e patologias específicas que causam muitas dores, paralisações, perdas das nossas memórias (todas as que identificamos no presente) e até ausência da Consciência (dimensão essencial de nossa vida como a qualidade e quantidade).
Cientificamente já sabemos que vários neurotransmissores e hormônios importantes vão diminuindo com a idade e alguns até desaparecem. Com isso muitos órgãos funcionam com dificuldades, as nossas defesas imunológicas diminuem ou desaparecem e as doenças se desenvolvem.
Felizmente o destaque dessas doenças, que aparecem na velhice, está sendo assunto frequente nos órgãos de comunicações. Mas é pouco. Pesquisas mundiais revelam que também, e principalmente, necessitamos utilizar promoção da saúde (prevenção das enfermidades, estilos saudáveis de vida, comunicação em saúde e eliminação dos fatores de riscos) pois, quando aplicada desde a infância, possibilita uma velhice com poucas dessas patologias, alem de, também, aumentar a nossa longevidade.
Mas o grande problema que conhecemos é que os políticos não dão o devido valor para a promoção da saúde da população e também para os idosos. Será por que muitos deles não votam mais? E nós, como profissionais da saúde, temos que “gritar” a verdade de todas as maneiras, temos que lutar por ela e convencer os políticos e a população em geral da verdade conhecida: promoção da saúde vale muito mais que muitos dos medicamentos e é fundamental para evitar os padecimentos na velhice. Lembrando, como sempre fazemos, que nós é que somos os maiores responsáveis pelos estilos saudáveis de vida. E, assim fazendo, não teremos de ouvir esta frase que nos entristece mais, a cada ano que passa.
Apenas como um lembrete final para os políticos, população jovem e os ricos donos do país: Já, já, vocês chegam lá. Muito mais rápido do que pensam. E a família está preparada para cuidar de você, velho doente e sofredor?
E vão dizer: felizmente ele morreu?
O Fascismo do Bem
Sei que vai ter nego aqui querendo a minha morte, mas sinceridade ? O politicamente correto cansa, porque é ditatorial e não aceita realmente nenhuma opinião contrária ao que ele acha válido.
Assim, a opinião do Noblat é praticamente a minha. E eu tenho direito a ter esta opinião, tal qual qualquer pessoa tem direito a ter a dela.
Discordo do Bolsonaro no modo de opinar, mas acho que ele tem total direito de ter a opinião dele. Este mundo que os politicamente corretos querem, me lembra muito a grande obra do Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo, em que tudo é igual, certinho, perfeito.
Um mundo inumano ... mas perfeito para quem realmente não saber respeitar o outro. O
O Fascismo do Bem
Noblat
Imaginem
a seguinte cena: em campanha eleitoral, o deputado Jair Bolsonaro está
no estúdio de uma emissora de televisão na cidade de Pelotas. Enquanto
espera a vez de entrar no ar, ajeita a gravata de um amigo. Eles não
sabem que estão sendo filmados. Bolsonaro diz: "Pelotas é um pólo exportador, não é? Pólo exportador de veados..." E ri.
A
cena existiu, mas com outros personagens. O autor da piada boçal foi
Lula, e o amigo da gravata torta, Fernando Marroni, ex-prefeito de
Pelotas. Agora, imaginem a gritaria dos linchadores "do bem", da patrulha dos "progressistas", da turma dos que recortam a liberdade em nome de outro mundo possível... Mas era Lula!
Então
muita gente o defendeu para negar munição à direita. Assim estamos: não
importa o que se pensa, o que se diz e o que se faz, mas quem pensa,
quem diz e quem faz. Décadas de ditaduras e governos autoritários
atrasaram o enraizamento de uma genuína cultura de liberdade e
democracia entre nós.
Nosso apego à liberdade e à
democracia e nosso entendimento sobre o que significam liberdade e
democracia são duramente postos à prova quando nos deparamos com a
intolerância. Nossa capacidade de tolerar os intolerantes é que dá a
medida do nosso comprometimento para valer com a liberdade e a democracia.
Linchar Bolsonaro é fácil. Ele é um símbolo, uma síntese do mal e do
feio. É um Judas para ser malhado. Difícil é, discordando radicalmente
de cada palavra dele, defender seu direito de pensar e de dizer as
maiores barbaridades.
A patrulha estridente do
politicamente correto é opressiva, autoritária, antidemocrática. Em
nome da liberdade, da igualdade e da tolerância, recorta a liberdade,
afirma a desigualdade e incita a intolerância. Bolsonaro é contra cotas
raciais, o projeto de lei da homofobia, a união civil de homossexuais e a
adoção de crianças por casais gays.
Ora, sou a favor
de tudo isso - e para defender meu direito de ser a favor é que defendo
o direito dele de ser contra. Porque se o direito de ser contra for
negado a Bolsonaro hoje, o direito de ser a favor pode ser negado a mim
amanhã de acordo com a ideologia dos que estiverem no poder.
Se minha reação a Bolsonaro for igual e contrária à dele me torno igual a ele - eu, um intolerante "do bem"; ele, um intolerante "do
mal". Dois intolerantes, no fim das contas. Quanto mais intolerante for
Bolsonaro, mais tolerante devo ser, porque penso o contrário dele, mas
também quero ser o contrário dele.
O mais curioso é que muitos dos líderes do
"Cassa e cala Bolsonaro" se insurgiram contra a censura, a falta de
liberdade e de democracia durante o regime militar. Nós que sentimos na
pele a mão pesada da opressão não deveríamos ser os mais convictamente
libertários? Ou processar, cassar, calar em nome do “bem” pode?
Quando
Lula apontou os "louros de olhos azuis" como responsáveis pela crise
econômica mundial não estava manifestando um preconceito? Sempre que se
associam malfeitorias a um grupo a partir de suas características
físicas, de cor ou de origem, é claro que se está disseminando
preconceito, racismo, xenofobia.
Bolsonaro deve ser
criticado tanto quanto qualquer um que pense e diga o contrário dele. Se
alguém ou algum grupo sentir-se ofendido, que o processe por injúria,
calúnia, difamação. E que peça na justiça indenização por danos morais.
Foi o que fizeram contra mim o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) e o
deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas daí a querer cassar o mandato de
Bolsonaro vai uma grande distância.
Se a questão for
de falta de decoro, sugiro revermos nossa capacidade seletiva de
tolerância. Falta de decoro maior é roubar, corromper ou dilapidar o
patrimônio público. No entanto, somos um dos povos mais tolerantes com
ladrões e corruptos. Preferimos exercitar nossa intolerância contra quem
pensa e diz coisas execráveis.
E tudo em nome da liberdade e da democracia...
A vontade de Deus
A vontade de Deus
Folha de São Paulo, terça-feira, 04 de janeiro de 2011
SÃO PAULO - Pessoas religiosas costumam dizer que seguem a vontade de Deus. A questão relevante então é descobrir como elas descobrem o que Deus quer, já que só uma minoria alega receber ordens diretas do Criador.
É justamente sobre esse intrigante ponto que as pesquisas de Nicholas Epley, da Universidade de Chicago, lançam luzes.
Epley e seus colaboradores entrevistaram centenas de pessoas e as inquiriram sobre temas moralmente carregados, como aborto, ação afirmativa, casamento gay, pena de morte e legalização da maconha. Também perguntaram como elas achavam que Deus via essas questões. A título de controle, pediram que os entrevistados dissessem quais seriam as respostas do americano médio, George W. Bush e Bill Gates sobre esses temas.
Houve grande coincidência entre as opiniões do indivíduo e aquelas que ele atribui a Deus. Por exemplo, se o sujeito é a favor da pena de morte, tende a dizer que o Criador também a defende -e vice-versa. Até aí não há muita surpresa. Vários estudos psicológicos já haviam demonstrado que nossas próprias convicções influem bastante sobre aquilo que imaginamos que outras pessoas pensam.
Os trabalhos de Epley ficam mais interessantes quando ele induz os participantes a modificar seu juízo, convidando-os a ler diante de uma câmara discursos contrários a seu ponto de vista inicial. Aí, como previsto pela psicologia experimental, o sujeito tende a reformular suas ideias. O curioso foi constatar que, nessas situações, a "opinião de Deus" também mudou, mas as atribuídas a Bush e Gates não.
Cereja no bolo: Epley também submeteu algumas de suas cobaias a estudos de neuroimagem, para constatar que, quando pensavam sobre o que Deus diria, ativavam os mesmos circuitos usados no pensamento autorreferencial.
O lado bom disso tudo é que ninguém precisa fazer muita força para estar do lado de Deus.
Sou ateu porque preciso
Um texto ótimo que encontrei estes dias na web e não pude deixar de compartilhar com vocês aqui no blog.
Sim, ateísmo voltará a ser um assunto latente aqui no blog, pois, eu sou ateu
. Apesar de muitos dos leitores daqui não gostarem do assunto, gostaria de pedir desculpas por isto, e, caso não agrade o texto, que pulem a leitura do mesmo.
Este texto fala sobre a visão do autor, o Alex Castro, sobre seu ateísmo.
Em breve, vou postar minhas visões, amadurecidas com o passar dos anos, sobre ateísmo e ceticismo, e o porque é tão difícil convencer pessoas como eu, da existência de divindades ou outras coisas que espiritualistas
tanto gostam de defender.
Sou ateu porque preciso
Alex Castro
Confesso: eu acredito viver no melhor universo possível.
Não suportaria existir em um universo regido por uma força divina misteriosa e caprichosa.
Não suportaria saber que minha alma viverá eternamente, em eterno prazer ou sofrimento, baseado no que fiz ou deixei de fazer nesses poucos anos terrenos, e com base em critérios inescrutáveis.
Não suportaria saber que vou seguir nascendo e renascendo, quase que infinitamente, mas sem lembrar de nada!
Se
Existe deus, então a vida não tem nenhum sentido. Quem tem sentido é deus e o nosso sentido provém dele. Não somos mais do que suas cobaias, manipulados daqui pra lá, correndo como hamsters naquelas rodinhas, ignorantes de seus verdadeiros propósitos. Ao seu bel-prazer, somos
mortos, escravizados, santificados, até mesmo afogados em massa, quando falha o experimento.
Se existe deus, então todos os esforços da humanidade para se entender e se auto-gerir, toda a ciência e toda a filosofia, de nada valem. Se existe deus, então não existe ética ou moralidade: somente adequção ou não às regras impostas pela divindade.
Se
existe deus e temos o livre-arbítrio, então o arbítrio de livre não tem nada, é uma dádiva da qual só desfrutamos porque nos foi concedida e pode ser tirada tão facilmente quanto.
Já disseram que, se deus não existe, então tudo é permitido. Mas se deus existe, por outro lado,
então não vale a pena fazer nada, pois nada faz sentido.
Um leitor questiona:
"Para mim, a grande questão não é se deus existe ou não, mas se nós vamos de alguma maneira continuar existindo depois da morte. Eu acredito que vamos continuar, de alguma maneira. Tenho que acreditar. Porque se não vamos, o que é essa vida senão um sonho? Aí é que ela vida não tem mesmo sentido, propósito nenhum. Se não há sentido para quê continuar? Por que não dar um tiro na cabeça daqui a cinco minutos(quando terminar o café)?"
Eu não dou um tiro na cabeça agora porque (além de não ter uma arma) quero saber o fim da novela, porque ainda há uns dois mil livros que eu quero ler e umas cem mulheres que quero comer, porque eu quero assistir os próximos filmes do Almodóvar pra saber o que esse louco vai aprontar, porque ainda falta eu escrever no mínimo uma dúzia de livros que tenho dentro de
mim, e etc etc. Será que tudo isso não é motivo suficiente pra não se enfiar uma bala na cabeça?
Talvez deus realmente exista. Sinto calafrios com essa possibilidade mas, sim, talvez sejamos todos somente marionetes em seu projeto cósmico.
Mas, se não podemos ter liberdade, melhor a ilusão da liberdade do que nada.
Sou ateu não por ter concluído, após cuidadosa análise das evidências empíricas, que não existe base factual para sustentar a existência de deus.
Sou ateu porque eu só poderia existir e funcionar como ser humano em um universo sem deus.
Sou ateu porque preciso.
Fonte: Filosofia Ateísta
De Boner para Homer ( sim, eu acho que brasileiro merece ser chamado assim )
Acho que as pessoas adquiriram uma certa aversão a Globo simplesmente para ser sentir superiores. No fundo, todos tem alguma crítica a mesma. Desde alienadora, até simplesmente aquela que manipula tudo no Brasil. Ou seja, a Globo incomoda.
Incomoda porque a maioria dos frustados pensadores brasileiros ( sim, não são todos, mas principalmente os com tendência para o lado vermelho da força ) ainda não conseguiram ver realmente um país do jeito que eles sonharam. Pegaram uma metalúrgico ridículo, colocaram o cara no poder e viram um governo
totalmente igual aos outros. Se, no fundo, os outros governos alienavam o povo de outras formas mil, este manipula o povo com migalhas e uma das coisas mais nojentas que existem. A devoção ( isto inclusive vai ser um motivo de um post mais para frente ) a figura de um metalúrgico que fingiu que trabalhou a vida inteira e se faz de igual a todos nós.
Assim, ler um texto como este não me deixa com raiva não. Ao contrário do que é dito nele, eu não me sinto um Homer Simpson porque eu sei como ler jornais e também, como entender o que está sendo mostrado no Jornal Nacional. É manipulado, sim, mas pelo menos manipulado com qualidade.
Sentir-se ofendido com o que é dito aí, é vestir uma carapuça que não é minha. Deixo esta carapuça para os outros milhões de pessoas ai, espalhadas pelo Brasil, que conseguem ser enganados por bolsas famílias e outras coisas ... simplesmente para continuar fazendo deles o gado que eles sempre foram ...
Por sugestão da navegante Luciene, o Conversa Afiada publica o artigo de Laurindo Lalo Leal Filho publicado na Carta Capital, edição número 371, de título: “De Bonner para Homer”
DE BONNER PARA HOMER
por Laurindo Lalo Leal Filho*
O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão do Jornal Nacional
Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja
Na reunião matinal, é Bonner quem decide o que vai ou não para o ar Pauta.
A decisão do juiz Livingsthon Machado, de soltar presos, é considerada coisa de louco*
Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.*
Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.*
Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP.
Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.
A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes.
Depois de um simpático bom-dia , Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo.
Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.
A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson.
Essa o Homer não vai entender , diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.
Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos atender ao Homer , passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.
Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas praças (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.
A primeira reportagem oferecida pela praça de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da oferta jornalística informa que a empresa venezuelana, que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível para serem vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano . Uma notícia de impacto social e político.
O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.
Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela praça de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. Esse juiz é um louco , chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência.
Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês matéria oferecida por São Paulo , o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS , ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.
De Brasília é oferecida uma reportagem sobre a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública . Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.
Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.
E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem
abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.
Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.
Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
Dicas úteis de Contra-Inteligência
Artigo interessante que encontrei no blog Hack Proofing, sobre Contra-Inteligência, que inclusive é o assunto ao qual estou dedicando este ano a estudar na minha pós :)
A fim de ampliar o nível de segurança das informações que circulam dentro de um ambiente sensível, sugerimos a adoção das seguintes recomendações:
1. É importante que alguém de confiança acompanhe reformas físicas no prédio bem como as manutenções de redes
, principalmente em se tratando de computadores, ou central de telefones
.
2. Programas e arquivos sigilosos devem ter acesso controladas por senhas ou outros métodos.
3. Assuntos sigilosos devem ser tratadas pessoalmente. Evite o uso do correio eletrônico ou telefone para estas finalidades.
4. A tecnologia da contra inteligência é cara, mas indispensável, bem como uma equipe bem treinada e de confiança.
5. Acredite sempre na possibilidade de você se confrontar com um espião mais experiente que você ou sua equipe.
6. Ao conversar assuntos sigilosos pessoalmente, considere sempre as possíveis vulnerabilidades do ambiente ou as intenções do seu interlocutor. Cheque também se o seu telefone celular não foi ligado acidentalmente.
7. Peça identificação aos profissionais que trabalham nos postes próximos da sua residência ou local de serviço. Alguns espiões conseguem identificarem-se próprios a si e seus veículos como sendo, por exemplo, da companhia telefônica. Por isto, sempre confirme a identificação com a companhia que o suspeito diz trabalhar.
8. Desenvolva programas de conscientização de funcionários para não saírem falando para os amigos tudo o que sabem sobre a empresa. Alguns espiões podem aproximar-se de empregados descuidados.
9. Verifique constantemente janelas, portas, quadros de chaves, trancas, quadros de DGs (telefones) e etc.
10. Procure por possíveis sinais de invasão durante a sua ausência. Uma caneta fora de posição na mesa pode ser sinal de que alguém este revirando-a na sua ausência.
11. Simule vazamentos de informações de maneira controlada. De acordo com as notícias que vierem à tona, você saberá quem são as pessoas em que pode confiar.
12. Escuta em ramais de centrais telefônicas eletrônicas é de difícil interceptação a partir da central do usuário para fora, porém é conveniente lembrar que a linha do interlocutor externo pode ser escutada e/ou gravada.
13. Os telefones com linhas diretas (analógicas) possibilitam fácil identificação de seus pares de fios correspondentes, logo, podem ser "grampeados" no ambiente que estiverem instalados, nas caixas distribuidoras dentro do prédio do usuário, na central telefônica do edifício (central do usuário), armários externos ou na empresa telefônica local (concessionária). Portanto, o seu privilégio em usar linhas diretas facilita o trabalho de quem deseja interceptar suas ligações.
14. Nos telefones digitais, apesar das dificuldades técnicas de interceptação no percurso entre o usuário final (interlocutor ao telefone) e a central do usuário, ainda assim, é de relativa facilidade a implementação de aparelho de escuta dentro do próprio aparelho telefônico digital, se ele é de fácil acesso e manuseio por outros.
15. Apesar do usuário final possuir em sua sala somente aparelhos digitais em suas linhas diretas, é comum que o link entre a central do usuário e
central da concessionária seja "não digital", o que o coloca praticamente na condição descrita no item anterior, evidenciando assim a vulnerabilidade das linhas diretas digitais ou não, já que muitas vezes a interceptação ocorre entre a central do usuário e a central da
concessionária local.
16. O uso do telefone celular deve ser apenas para assuntos de domínio público. A telefonia celular opera via radiotransmissão entre o aparelho celular e a torre da concessionária sendo possível interceptar seus sinais por meio de receptores de varredura como os scanners (não se esqueça que mesmo um aparelho celular "digital" pode temporariamente funcionar no modo "analógico" ).
17. O mesmo fundamento utilizado no item anterior, vale para o caso dos telefones sem fio, variando-se aqui apenas o fato de que a radiotransmissão ocorre entre o monofone (a parte do aparelho que o usuário utiliza para falar) e a base do aparelho.
18. Existem grampos que se utilizam de sofisticações tecnológicas e são implementados de tal forma que a sua detecção por meios eletrônicos se
torna quase impraticável.
19. Os meios reprográficos associados à negligência no manuseio de documentos são meios de vazamento de informações, freqüentemente confundidos com escuta telefônica.
20. Lembre-se que seu interlocutor pode estar gravando o diálogo, telefones com secretárias eletrônicas possuem geralmente esse recurso disponível.
21. Papel carbono utilizado e não destruído é fonte de informação, assim como minutas de documentos e sobras de testes mecanográficos.
22. Após o expediente, deve-se guardar documentos em locais que possam ser trancados com chaves ou cadeados. Isto também vale para os documentos em sua bolsa.
23. Máquinas fotográficas, em fração de segundos, registram documentos deixados de forma descuidada sobre as mesas, assim como câmeras de vídeo.
24. A escuta ambiental pode ser implementada através de fonocaptadores ligados a gravadores ou a transmissores que modulam o sinal para que o mesmo seja
transmitido via radiofreqüência para posterior recepção/ demodulação em outro ponto, ou mesmo modulado em baixa freqüência e enviado via rede elétrica local para que em outro ponto desta rede seja recepcionado/demodulado.
25. Habitue-se a exigir credenciais das pessoas antes de terem acesso à sua empresa ou residência.
26. Almoços executivos, onde assuntos são tratados e discutidos, podem funcionar como pontos vulneráveis para vazamento de informações; são
oportunidades que podem ser usadas por jornalistas ou outras pessoas interessadas na informação.
27. O uso de máquinas fragmentadoras (picotadoras de papéis) em
escritórios/gabinetes é fator de segurança contra vazamento de informações.
28. Pessoas que apresentam vulnerabilidade no caráter - jogadores inveterados, tomadores de empréstimos compulsivos, alcoólicos, viciados em drogas, etc, podem ser compelidos a se tornarem "informantes".
29. Evite ser metódico com relação a pontos de encontros. A escuta ambiental geralmente é planejada em função de hábitos e preferência do alvo (pessoa sob vigilância), que são "mapeados" previamente.
30. Mesmo no recinto do lar podem haver informantes. Sempre que possível deixe para o ambiente de trabalho os assuntos a ele relacionados.
31. Ambientes utilizados para reuniões e tomadas de decisões devem ser vistoriados previamente e frequentemente.
32. Quando existirem fortes indicativos de que determinada linha telefônica esteja sob vigilância, é recomendável o uso de scrambler (misturadores
de vozes) entre os dois pontos mais críticos relacionados ao tráfego de informações, ou ainda o uso de bloqueadores de grampos. Dê preferência aos equipamentos de contra inteligência de uma linha profissional.
33. Dentro das possibilidades, as cápsulas telefônicas e tomadas de paredes devem ser marcadas e, sempre que possível, submetidas a verificações
inopinadamente.
34. Miolos de tomadas de energia, telefones, interruptores, etc, quando possível, devem ser vistoriados e marcados.
35. A varredura efetuada em determinada data garante a eficácia dos trabalhos apenas naquela data e considerando-se ainda os métodos e equipamentos utilizados.
36. Nada pode garantir que o espião, sabendo do agendamento da varredura, tenha retirado o grampo (ambiente ou telefônico) previamente, nem se pode garantir que após a execução do trabalho de varredura, "alguém" não vá colocar uma escuta no ambiente, por isso a valorização dos procedimentos básicos de segurança é essencial.
A Natureza do Trans-Humanismo e Demais Formas de Futurismo
Artigo muito interessante sobre Transhumanismo e suas formas somadas ao futurismo.
O artigo é um pouco exagerado em alguns pontos, mas o autor me parece ser mais ligado ao Extropianismo, que é uma forma de Transhumanismo mais amplificada, ou seja, levando o Transhumanismo um pouco mais ao extremo.
Mas, o artigo consegue passar, em poucas linhas, todas as idéias principais do Transhumanismo e o que o Transhumanista espera do futuro.
Eu, pessoalmente, não espero uma sociedade tão perfeita o quanto o texto mostra. Só espero, que, com a ajuda da tecnologia, consigamos chegar a um patamar muito interessante, onde consigamos uma sociedade mais justa e ainda, muito melhor para cada ser humano.
Para ler o texto, clique aqui.
O Brasil na próxima década
Antero Coelho é um dos caras que praticamente me apresentou o Transhumanismo. E, sem dúvida, é uma figura de rara sabedoria, coisa que pode ser vista nos seus textos.
Sempre leio os textos que ele me manda e este eu achei deveras interessante para ser publicado, sem desmerece todos que ele me manda sempre.
O Povo
"O Brasil na próxima década"
Antero Coelho Neto
07 Out 2009 - 00h48min
Como estudioso no assunto da futurologia e membro ativo de várias associações, sempre tenho procurado fazer a previsão dos cenários futuros de nosso país. Lembro para os leitores que no meu livro publicado em 2003, O Futurista e o Adivinho, destaco as mudanças previstas para a próxima década nas áreas do desenvolvimento econômico, tecnologia e as ciências, população e suas migrações, ecologia, assim como a qualidade de vida do povo brasileiro. Há vários anos defendo, como vários outros estudiosos, que apenas o desenvolvimento econômico, medido pelo PIB, é insuficiente para retratar a felicidade do povo que é o importante na vida de todos.
Para mim, como para vários outros pesquisadores no assunto, as possibilidades de mudanças importantes no cenário mundial para a próxima década são evidentes. Alguns países com as mudanças efetuadas, devem melhorar significativamente de qualidade de vida, valores, cidadania e a longevidade de suas populações. Acreditamos que estes serão os elementos condicionantes mais importantes dos projetos políticos de alguns países do universo.
A busca do desenvolvimento econômico exclusivo está com os dias contados. Existem evidentes sinais que asseguram uma política dirigida para uma ecologia humana e integral em vários países do globo, inclusive no Brasil. Acreditamos que os políticos e economistas serão inteligentes para entender que suas propostas terão que compartilhar com a segurança, desenvolvimento humano e a satisfação de viver da população. E isto somente poderá ser alcançado através das dimensões fundamentais da vida: saúde, educação, estilos de vida e ambiente saudável.
As três primeiras dessas dimensões humanas já são conhecidas de grande parte de nossa população como fundamentais, em virtude da enorme difusão das informações através dos diferentes meios de comunicação. As publicações de muitos autores, a mídia de uma maneira em geral, a Internet e os ensinamentos adquiridos nas Escolas e Universidades tem destacado as nossas necessidades e desejos.
A quarta dimensão, ambiente saudável, finalmente e felizmente no Brasil, constitui assunto de destaque no cenário político de todo o país. A luta contra a destruição dos rios e florestas, aquecimento global e a perda da biodiversidade assim como a prática de uma humanização do ambiente de uma maneira integral, já são e serão os grandes assuntos da próxima década.Muitos já estamos convencidos que o ambiente é de vital importância e os partidos políticos vão ter que mudar suas visões exclusivamente economicistas.
Temos de melhorar e aumentar a classe média e diminuir os pobres e, para isto, também é vital aumentar a satisfação do homem no ambiente saudável em que vive. Vejo que não foi em vão quando procurava um Partido Político em 1984 e, como resultado de minha busca inútil, escrevia meu artigo neste O POVO (``Procura-se um Partido`` em 2/10/84) e concluía dizendo: ”Para conseguir participar de um real partido político é necessário aceitar e valorizar os seus princípios e objetivos fundamentais. Coisas que, infelizmente, não identifico nos Sarneys & Cia, que aí estão na pregação de um novo Partido``.
Já naquele tempo... Há 25 anos atrás! Mas vai mudar. Acreditem. As marinas estão chegando.
Antero Coelho Neto - Médico e professor
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Carta aberta dos Ateus ao Presidente
Hoje, eu publico a carta. Amanhã ou hoje mais tarde, com um tempo razoável, vou fazer minhas considerações sobre o texto. Sinto que infelizmente, nós ateus, que queremos nos ver reconhecidos pela socidade, como cidadãos, precisamos começar um trabalho político.
Para de falar de ateu para a ateu, e começar a falar de ateu, para o povo como um todo.
Caro presidente,
o senhor chegou ao poder carregado pela bandeira de uma sociedade mais justa e mais inclusiva. O uso da palavra “excluídos” no vocabulário das políticas públicas tem o mérito de nos lembrar que as conquistas de nossa sociedade devem ser estendidas a todos, sem exceção. Sim, devemos incluir os negros, incluir as mulheres, incluir os miseráveis, incluir os homossexuais. Mas, presidente, também é preciso incluir ateus e agnósticos, e todos os demais indivíduos que não têm religião.
Infelizmente, diversas declarações pessoais suas, assim como políticas do seu governo, têm deposto em contrário. Ontem mesmo o senhor afirmou que há “muitos” ateus que falam sobre a divindade da mitologia cristã quando estão em perigo. Ora, quando alguém diz “viche”, é difícil imaginar que esteja pensando em uma mulher palestina que se alega ter concebido há mais de dois mil anos sem pai biológico. Algumas expressões se cristalizam na língua e perdem toda a referência
ao seu significado estrito com o tempo, e esse é o caso das interjeições que são religiosas em sua raiz, mas há muito estão secularizadas. Se valesse apenas a etimologia, não poderíamos nem falar “caramba” sem tirar as crianças da sala.
Sua afirmação é a de quem vê “muitos” ateus como hipócritas ou autocontraditórios, pessoas sem força de convicção que no íntimo não são descrentes. Nós, membros da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, não temos conhecimento desses ateus, e consideramos que essa referência a tantos de nós é ofensiva e preconceituosa. Todos os credos e convicções têm sua generosa parcela de canalhas e incoerentes; utilizar os ateus como exemplo particular dessas características
negativas, como se fôssemos mais canalhas e mais incoerentes, é uma acusação grave que afronta a nossa dignidade. E os ateus, presidente, também têm dignidade.
Duas semanas atrás, o senhor afirmou que a religião pode manter os jovens longe da violência e delinqüência e que “com mais religião, o mundo seria menos violento e com muito mais paz”. Mas dizer que as pessoas religiosas são menos violentas e conduzem mais à paz é exatamente o mesmo que dizer que as pessoas menos religiosas são mais violentas e conduzem mais à guerra. Então, presidente, segundo o senhor, além de incoerentes e hipócritas, os ateus são criminoso e
violentos? Não lhe parece estranho que tantos países tão violentos estejam tão cheios de religião, e tantos países com frações tão altas de ateus tenham baixíssimos índices de criminalidade? Não é curioso que as cadeias brasileiras estejam repletas de cristãos, assim como as páginas dos escândalos políticos? Algumas das pessoas com convicções religiosas mais fortes de que se tem notícia morreram ao lançar aviões contra arranha-céus e se comprazeram ao negar o direito mais básico do divórcio a centenas de milhões de pessoas. Durante séculos. O mundo
realmente tinha mais paz e menos violência quando havia mais religião? Parece-nos que não.
A prática de diminuir, ofender, desumanizar, descaracterizar e humilhar grupos sociais é antiga e foi utilizada desde sempre para justificar guerras, perseguição e, em uma palavra, exclusão.
Presidente, por que é que o senhor exclui a nós, ateus, do rol de indivíduos com moralidade, integridade e valores democráticos?
No Brasil, os ateus não têm sequer o direito de saberem quantos são. O Estado do qual eles são cidadãos plenos designa recenseadores para irem até suas casas e lhes perguntarem qual é sua religião. Mas se dizem que são ateus ou agnósticos, seus números específicos lhes são
negados. Presidente, através de pesquisas particulares sabemos que há milhões de ateus no país, mas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que publica os números de grupos religiosos que têm apenas algumas dezenas de membros, não nos concede essa mesma deferência. Onde está a inclusão se nos é negado até o direito de auto-conhecimento? Esse profundo desrespeito é um fruto evidente da noção, que o senhor vem pormenorizando com todas as letras, de que os ateus não merecem ser cidadãos plenos.
Presidente, queremos aqui dizer para todos: somos cidadãos, e temos direitos. Incluindo o de não sermos vilipendiados em praça pública pelo chefe do nosso Estado, eleito com o voto, também, de muitos ateus, que agora se sentem traídos.
Presidente, não podemos deixar de apontar que somente um estado verdadeiramente laico pode trazer liberdade religiosa verdadeira, através da igualdade plena entre religiosos de todos os matizes, assim como entre religiosos e não-religiosos de todos os tipos, incluindo ateus e agnósticos. Infelizmente, seu governo não apenas tem sido leniente com violações históricas da laicidade do Estado brasileiro, como agora espontaneamente introduziu o maior retrocesso imaginável nessa área que foi a assinatura do acordo com a Sé de Roma, escorado na chamada lei geral das religiões.
Ambos os documentos constituem atentado flagrante ao art. 19 da Constituição Federal, que veda “relações de dependência ou aliança com cultos religiosos ou igrejas”. E acordos, tanto na linguagem comum como no jargão jurídico, são precisamente isso: relações de aliança.
Laicidade, senhor presidente, não é ecumenismo. O acordo com Roma já era grave; estender suas benesses indevidas a outros grupos não diminui a desigualdade, apenas a aumenta. Nós não queremos privilégios: queremos igualdade e o cumprimento estrito da lei, e muitos setores da
sociedade, religiosos e laicos, têm exatamente esse mesmo entendimento.
Além de violar nossa lei maior, a própria idéia da lei geral das religiões reforça a política estatal de preterir os ateus sempre e em tudo que lhes diz respeito como ateus. Com que direito o Estado que também é nosso pode ser seqüestrado para promover qualquer religião em particular, ou mesmo as religiões em geral? Com que direito os religiosos se apossam do dinheiro dos nossos impostos e do Estado que também é nosso para promover suas crenças particulares? Religião não é,
e não pode jamais ser política pública: é opção privada.
O Estado pertence a todos os cidadãos, sem distinção de raça, cor, idade, sexo, ideologia ou credo. Nenhum grupo social pode ser discriminado ou privilegiado. Esse é um princípio fundamental da democracia. Isso é um reflexo das leis mais elementares de administração pública, como o princípio da impessoalidade. Caso aquelas leis venham de fato integrar-se ao nosso ordenamento jurídico, os ateus se juntarão a tantos outros grupos que irão ao judiciário para que nossa lei não volte ao que era antes do século retrasado.
Presidente, será que os ateus não merecem inclusão nem em um pedido de desculpas?
Raridade não é milagre
Folha de São Paulo, domingo, 19 de julho de 2009
Marcelo Gleiser
Raridade não é milagre
Pessoas podem querer achar lugar para a fé na ciência, mas a vida não é esse lugar Talvez a confusão entre um fenômeno raro e um milagre seja inevitável, sobretudo se a pessoa for religiosa, procurando na fé respostas para questões que a ciência ainda não respondeu. Mas não deveria ser.
Na semana passada, escrevi sobre uma hipótese científica chamada "Terra Rara". Segundo ela, os avanços das ciências físicas e biológicas apontam para um fato um tanto curioso e de extrema importância: ao contrário do que supõem muitos cientistas, a Terra é um planeta raro.
raridade de formas de vida extraterrestre complexas, ou seja, na raridade de seres multicelulares, como insetos ou mamíferos (e seus primos alienígenas).
Os autores da hipótese, Peter Ward e Donald Brownlee, não questionam se bactérias podem ser relativamente fáceis de encontrar em outros planetas e luas que tenham água líquida, química favorável e fontes de energia capazes de manter seu metabolismo.
Mas Ward e Brownlee insistem que "monstros" ou ETs inteligentes devem ser muito raros.
A conclusão imediata é que, se a hipótese estiver correta -e eu acho que está, por motivos que explorarei em novo livro que será publicado em 2010-, o homem (ou melhor, os humanos) volta a ser importante. Volta porque, como sabemos, antes de Copérnico sugerir que o Sol, e não a
Terra, é o centro do cosmo (ao menos o cosmo do século 16), a Terra e, consequentemente, o homem, era o centro da Criação. Esse antropocentrismo antiquado e de base religiosa não tem nada a ver com o novo antropocentrismo (humanocentrismo seria melhor) que estou propondo.
Esse esclarecimento é importante.
Logo após a minha coluna da semana passada ter aparecido, recebi mensagens de vários leitores agradecendo-me por justificar sua crença de que fomos criados por Deus. Ou seja, pessoas ávidas por uma justificação científica para a sua fé em Deus veem a afirmação de que a vida complexa é rara no cosmo como prova de que deve ter surgido milagrosamente por intervenção sobrenatural.
Entendo a necessidade de pessoas quererem achar um lugar para a sua fé na descrição científica do universo.
Mas a raridade da vida complexa e de seres inteligentes não é esse lugar. O fato de um evento ser raro, ou de baixa probabilidade, não faz com que não possa ser explicado por argumentos científicos. Raridade não é milagre.
Achar uma orquídea florescendo na avenida Paulista, ver um tucano sobrevoando o aeroporto de Congonhas, ganhar na loteria, engravidar aos 44 anos ou ver a explosão de uma supernova são todos eventos raros.
Nenhum deles é um milagre sobrenatural, embora possa ser tentador para
alguns atribuí-los a algo inexplicável.
Essa é a diferença fundamental entre ciência e fé. Na fé, o raro é atribuído a causas sobrenaturais. Na ciência, é um fenômeno natural de pouca frequência. Se a vida complexa for rara no Universo, nós passamos a ser a exceção, não a regra. Apesar de ser tentador atribuir nossa raridade (ou a dificuldade dos vários passos evolucionários até a vida complexa) a um milagre sobrenatural, mais significativo é compreender a importância de sermos um raro acidente da Natureza.
Em vez de darmos graças a Deus por estarmos aqui, devemos tomar nosso destino em nossas mãos e fazer todo o possível para preservar a vida nesse planeta e, por que não, espalhá-la pelo Universo.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"







